segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Experiência #1 : A Volta dos que Não Foram


Uau, eu tenho um blog!

É, difícil lembrar disso de vez em quando. Principalmente quando de vez em quando eu resolvo dar um tempo nas postagens.
Ou quando esse dar um tempo vira quase um ano e o de vez em quando vira nunca.
Mas eu voltei. Voltei! E melhor ainda: agora eu tenho uma assessora de imprensa!

...


É, aparentemente eu tenho uma preguiça incurável, que me impede de postar e escrever com a frequência de uma pessoa normal... Embora nesse mundo uma pessoa normal escreve textos com a mesma frequência que eu no último ano, então anulei minha frase totalmente. Mas ainda tenho uma preguiça incurável, então não anulei totalmente, a não ser que meu futuro chefe esteja lendo isso, nesse caso eu anulei totalmente sim, e sou uma pessoa extremamente disposta, cooperativa e adora fazer relatórios, certo? Não, não quer dizer que goste de fazer relatórios a minha vida inteira, eu só não tenho preguiça de fazer aqueles grandes e entedian...

Quer saber? Esqueçam o último parágrafo. Eu tenho uma assessora de imprensa que vai divulgar isso aqui, sou uma diva, só preciso me preocupar em escrever rápido o bastante pra ela não me comer o fígado.
Enfim, eu tinha uns cinco textos começados. Na verdade, se alguém um dia for atrás de mim, me achar, me matar, conseguir separar meus braços, pegar meu computador, descobrir a senha e fazer uma peregrinação de pastas atrás de pastas, vai ver que eu tenho mais de vinte começos de textos, crônicas, livros de fantasia e ficção científica, todos esperando seu fim... Sendo esse fim um ponto final ou a lixeira. E estava na dúvida sobre qual resenha escolher, mas como agora tenho uma dona assessora, ela disse “bota um texto seu”.
Não, na verdade ela disse "bota um texto seu".
E eu temi por minha vida. Sério.

E porque eu gosto de melancia, Friends, Joseph Gordon-Levitt e principalmente de continuar respirando, docilmente aceitei, e agora vocês vão ler, em primeira mão, a minha primeira experiência publicada. Eu escrevi numa época cheia de provas, stress, barulhos, raiva e...
Quer saber, foda-se, eu acabei de inventar isso aí.
E lembrem-se que eu sou uma jovem e extremamente promissora escritora em início de carreira, elogiem-me, por favor. Gente jovem e arrogante não gosta muito de críticas abertas. Me mandem por inbox.
Ah, e também não tem título. Sou péssima em dar títulos.



Nasci no dia mais quente do ano. No dia mais quente da década. Tão quente que ninguém ficou em casa naquele dia. Foi o dia mais barulhento do ano.
E eu odiei cada barulhinho.
Fui um bebê silencioso. Nos primeiros dias meu pai perguntou “o que esse troço deveria fazer, afinal?” Minha mãe vivia discretamente me cutucando pra ver se ainda estava vivo; meu irmão uma vez tirou minha fralda pra ver se não estava com a pilha fraca. Fui silencioso, mas bastava abrir a porta do meu quarto pra eu acordar.

Fui uma criança silenciosa. Os professores sempre levavam um ano ou dois não pra aprender meu nome, mas sim pra notar que eu estava ali. Geralmente as aulas iam até a metade do ano assim: 
-Caetano?
-Presente.
-Camila?
-Presente.
-Carlos... Carlos Oliveira?
- Presente.
(Minha voz nunca foi mais que um sussurro.)
- Oh, olá Carlos. Transferido?
- Não.- Ahnn, mas é novo aqui, certo? Posso jurar que nunca te vi por aqui.
-Professor, estudo aqui desde o primário...

-Ah, ok. Onde eu estava... Ah, sim. Carlos Oliveira?
-Presente, professor.
- Oh, olá. Você é novo aqui?
 Todas as aulas. Em abril já respondia a chamada mostrando meu histórico escolar pra provar que sempre estive ali, na mesma carteira inclusive. E claro, odiava qualquer conversa na sala. Odiava o recreio com aquelas crianças pulando e gritando. Odiava a biblioteca com aquelas pessoas e sua mania de virar as páginas dos livros.

Fui um homem quieto. Meu irmão tinha a mania de assaltar a geladeira de madrugada, e seus passos sempre me acordaram, então assim que consegui um emprego saí de casa. Sempre morei sozinho, na rua mais barulhenta do país.
Certo, admito, podia ser uma rua normal. Mas cada vizinho tinha um cachorro. E um gato. Um papagaio não era raro.
Cada.
Vizinho.
E digo mais: havia uma lei municipal que dizia que se tivesse menos de vinte e sete pinschers por quadra todos os habitantes teriam que entregar seu primogênito para virar escravo nas minas da Mongólia.
Pelo menos era a única explicação que eu encontrei pra ter tantos ratos pinscher e chihuahuas na minha rua.
Mas verdade seja dita, havia cachorros grandes também, que graças à maldita física seus latidos mais graves podiam ser ouvidos a uma distância maior. Toda noite o líder dos gatos da cidade – que eu costumava chamar de Isaac Karabitchev – tentava reunir seu povo e montar um coral para cantar a trilha sonora de Cats. Mas os cachorros achavam que era na verdade arte interativa, e tentavam interagir seus dentes com o pescoço dos seus amigos cantores, ou no mínimo cantar também. Como muitos eram cachorros com um dom para a política, conseguiam ficar horas discursando entusiasticamente sobre como aquele coral era bom para a vizinhança, aproximava as crianças e fazia a felicidade do Velho Billy, que tinha um novo sapato pra roer toda noite. Meu sapato, aliás. Malditos, se duvidar eles vão receber a cada lua cheia seu peso em ração Pedigree do sapateiro.

Uma noite, quando uma gata cantava Memory na esquina, eu peguei todos os meus sapatos – podia imaginar o sapateiro saltitando de alegria, o desgraçado – saí na rua e atirei naquele coral, naquele comício e aproveitei pra atirar naquela maldita andorinha que tinha chegado da migração, não acertara seu fuso horário e sempre começava a cantar às quatro da manhã.

Fui preso. Por perturbar a paz. Maldita ironia da vida.

Achei que na prisão teria meu silêncio.  Mas o cara que estava comigo insistia em respirar a noite toda. E um cara com aquele nariz... Se eu tivesse gravado aquele ronco podia colocar no alarme de casa e quando um ladrão entrasse acharia que tinha invadido a casa do Darth Vader.
Me mudei centenas de vezes, mas acho que Isaac passou a me considerar seu ídolo de inspiração e carregava seu elenco aonde quer que eu fosse. Uma noite, fiquei sentado na cama pensando em todas as maneiras mais lentas de se matar um grupo de gatos, e claro, todos os cachorros fãs do show, quando de repente todos pararam. Meu deus, eu sou o Professor Xavier, pensei.  Acabei de matar todos os bichos da vizinhança telepaticamente. Já me preparava para matar aquelas andorinhas que nunca acertavam o relógio quando ouvi o Isaac dizendo “não, não ficou bom, vamos de novo! Um, dois, três e...”

 Uma vez deitei em uma igreja. Ali era silencioso. Tão silencioso que comecei a notar os barulhos da rua, algo que os gatos nunca tinham deixado antes. Mas que merda. Buzinas, freadas, o som alto de algum imbecil lá longe. Me levantei. Olhei para o altar.

"É demais pedir por uma noite de silêncio?"

Ninguém me respondeu. Deus deve ter achado que se ele fizesse algum barulho naquela hora eu virava ateu, e Ele não precisava perder mais um cliente.

Me mudei para o campo. Lá não tinha carros, música, gatos e cachorros.
- Não é agradável dormir com a chuva caindo?, perguntava a dona da pensão.
Mas quando caía ela batia insistentemente em uma folha embaixo da minha janela. Ploc ploc ploc ploc ploc ploc ploc ploc ploc ploc ploc(bis).
-Não é bom dormir ouvindo o vento, então?
Seria aquele mesmo vento que quando soprava fazia um galho de árvore bater na vidraça? Tap tatatap tap tap tap tap.
- Os grilos, senhor. Não são tranquilizantes?
Cricricricricricricricricricricricricricricricricricricricricricricri. Sem comentários.

Então eu ouvi falar de uma câmara que haviam inventado que era completamente isolada acusticamente. Se caísse uma bomba atômica do lado, a pessoa dentro não ouviria nada. Nada. Morreria, é claro, mas completamente ignorante sobre o que a atingira.
Vendi casa, carro, móveis, corpo, tudo, para comprar minha câmara. Quando o vendedor apertou minha mão  e mostrou meu pequeno paraíso quadrado, sorri. A última vez que tinha sorrido foi quando meu vizinho que ouvia sertanejo até as três da manhã foi assassinado.
Deitei lá dentro. As paredes eram brancas, teto branco, tudo branco.
Silêncio. Nem a mais pura das músicas já tocadas tinha um som tão doce quanto o silêncio.
Foi quando eu ouvi. Ele.
Não, por favor.
Ele de novo.
 
Não, não me tirem isso. Não o meu silêncio!
Ele mais uma vez. Maldito. Três vezes maldito.
Meu coração pulsava, feliz de ser finalmente ouvido pelo dono.
 

Me matei com uma overdose de remédios para dormir. Queria uma morte tranquila, indolor.
E silenciosa.
Minha alma foi subindo ao Céu. Eu vi todas as cores do Universo. Todas as estrelas. Todos os mundos. Mas acima de tudo, eu vi o silêncio absoluto. Nenhuma voz, nenhum miado, nenhum ploc ploc ou cricri. Nenhum som.
Finalmente estava em paz. Minha pobre alma torturada finalmente se permitiu um suspiro de alívio.
 E então, um anjo começou a cantar.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Feliz Dia da Toalha! Feliz Dia do Orgulho Nerd! - O Guia do Mochileiro das Galáxias


Só demorei pra postar porque minha vida tem tido um pouco de agitação ultimamente. Imaginem vocês que um dia eu estava na rua, encontrei uma moeda e... Enfim, fora ter que doar meu rim à máfia holandesa, está tudo bem agora.
Se vocês virem por aí um cartaz de “PROCURADA”, não sou eu, ok?

Muitas pessoas têm me cobrado para falar de várias séries. Harry Potter, Desventuras em série, A Herança (mais conhecida por ‘Eragon’), O Senhor dos Aneis, Morada da Noite (ok, esse ninguém me cobra)... Mas decidi por um bem mais hardcore. Para comemorar o Dia da Toalha. Agora vocês entenderão porque tinha gente por aí com uma toalha na mão. Não, não era uma festa do banho coletivo do qual você não foi convidado.

Na verdade, eu demorei pra falar sobre essa série, porque é preciso estar extremamente inspirada para isso. E, como a maioria das pessoas, eu sempre tive minhas melhores ideias enquanto tomava banho, então decidi levar meu PC para o banheiro, a fim de registrá-las.
Como qualquer pessoa normal faria.
 Postei sobre isso no facebook, pessoas comentaram, e não sei como, a conversa evoluiu para uma possível estreia minha na indústria pornô e a possibilidade de ficar linda, rica e famosa fazendo isso.
Não postarei mais sobre isso. Ideias absurdamente atraentes podem surgir...



*pensando sobre o assunto*



*eu teria que me depilar com frequência muito maior*


*e pagar a conta d’água*





*desistindo da ideia*


Então, o texto que se segue foi escrito em inúmeras etapas - cada vez que eu ia buscar referências em algum dos livros eu resolvia ler um pouco mais e inexplicavelmente tinham se passado duas horas - e regado a muita dinamite pangaláctica.


O livro mais vendido em toda a galáxia, exceto no setor ZZ9 Plural Z Alfa.



O Guia do Mochileiro das Galáxias é uma série de ficção científica de Douglas Adams, baseada em um programa de rádio do mesmo autor de 1978, que virou uma série de seis episódios da BBC e um filme em 2005. É uma trilogia de quatro livros, que por acaso são cinco, que conta as aventuras de Arthur Dent, Ford Prefect, Zaphod Beeblebrox, Trillian, e o melhor de todos, Marvin, o robô maníaco depressivo.

Quando eu comprei a série, confesso que não sabia nada sobre ela. Geralmente os livros que eu compro na loca me rendem ótimas surpresas – como o excelente livro de aventura Choque Mortal – enquanto outros muito bem recomendados provavelmente viram uma decepção – vida A menina que não sabia ler.

Mas minha única referência para o Guia era “Superdesconto Submarino! Toda a coleção Guia do Mochileiro das Galáxias por apenas R$29,90!”. E foi uma das melhores surpresas da minha vida. Provavelmente empatado com o dia em que eu perdi a... Ahnn, foi a melhor surpresa da minha vida, com certeza.

Os livros pingam ironia, tiram sarros de si mesmos, aplicam conhecimentos gerais, física, biologia, astronomia, matemática, filosofia, teologia, cultura geral e geek praticamente o tempo todo. E, mais importante, trolla o leitor constantemente.
Exemplo:

 – Sabe – disse Arthur – é em ocasiões como essa, em que estou preso em uma câmara de descompressão de uma espaçonave vogon, com um sujeito de Betelgeuse, prestes a morrer asfixiado no espaço, que realmente lamento não ter ouvido o que minha mãe me dizia quando eu era garoto.
- Por quê? O que ela dizia?
- Não sei. Eu nunca escutei.
 E você aí, achando que o que viria a seguir seria um ótimo conselho maternal né? BAZZINGA!

Não sei vocês, mas sempre separei, instintivamente, as pessoas ao meu redor se gostavam ou não de Simpsons. Se não, automaticamente as tratava de um jeito diferente. De cabeça, agora, me lembro de umas quatro pessoas, e já peço desculpas antecipadamente: a culpa não é minha se meu subconsciente prefere pessoas que apreciam a boa e fina sátira! Minha consciência apenas segue ordens!
Depois de separar as pessoas nessas categorias, eu ia para casa, assistia a algumas temporadas em Springfield. Depois lia uns capítulos do Guia. Depois via mais algumas em Springfield.

E daí me perguntava: COMO é possível alguém não gostar disso!?

Sério, não entendo. Se o estilo dele fosse difícil de ser compreendido – como João Guimarães Rosa – ou fosse extremamente descritivo – como Tolkien – com muito esforço, eu entenderia.
E só leio Senhor dos Aneis porque acho que o enredo supera qualquer necessidade de se saber contar uma história. Poderia ser contada em forma de hai cai, que ainda assim seria uma das melhores histórias já escritas.


Foco, Sarah, foco... Você fala sobre isso outro dia...

Mas sério, eu não entendo.
Ora bolas caraminholas, quantos autores de sci-fi você conhece cujo personagem SECUNDÁRIO – O Pensador Profundo - descobriu a resposta para a pergunta que aflige a humanidade sobre a Vida, o Universo e Tudo Mais?
Quantos autores ateus você conhece que provam a existência e a inexistência de Deus no mesmo parágrafo?
Quantas explicações para o fato do ser humano falar o óbvio constantemente você conhece que são melhores que se não exercitarem seus lábios constantemente, seus cérebros começam a funcionar?

Mas sério, eu não entendo.
E só aceito duas boas explicações para esse desgosto: ou você tem ataques epiléticos inexplicáveis quando lê/ouve a palavra “galáxia”, ou você tem síndrome de Asperger, que um dos sintomas apresentados é a incapacidade de se entender o sentido metafórico de expressões, tais como ironia.

Teste rápido de sarcasmo:
Você gosta desse cara?

O dono do sarcasmo-perfeito-na-tv.

Bem, o sarcasmo do livro é bem mais livre do que o de House. Ninguém, na galáxia inteira fica te falando “oooooooooooh o seu sarcasmo é ácido, por isso você afasta a todos e não quer amar ninguém, bla bla bla”. Ao contrário, você pode até mesmo ser o presidente da Galáxia! Se bem que todo mundo sabe que a função do presidente é desviar a atenção do poder, e que o verdadeiro poder é controlado por alguém que conversa com uma mesa.
 Mas mesmo assim, ninguém diz pro presidente “seu sarcasmo protege seu coraçãozinho, mas eu quero amá-lo!”


Malditas mulheres, sempre estragando os melhores seriados.

Não, no Guia, você lê trechos como esse:

 O robô fez um gesto, levantando a mão.
- Eu venho em paz – anunciou ele, acrescentando após um longo momento de esforço adicional -, levem-me ao seu lagarto.
Ford Prefect, é claro, tinha uma explicação para aquilo tudo, enquanto assistia com Arthur às repetidas reportagens frenéticas na televisão que, por sinal, não tinham nada a dizer, além de anunciar que a coisa tinha causado um prejuízo tal, avaliado em tantos bilhões de libras e que tinha matado aquele outro número completamente diferente de pessoas, e depois repetiam tudo novamente, porque o robô, desde então, estava prostrado, balançando levemente o corpo e emitindo pequenas mensagens de erro incompreensíveis.
- Ele vem de uma democracia muito antiga, sabe...
- Você está querendo dizer que ele vem de um mundo de lagartos?
- Não – respondeu Ford que, àquelas alturas, já estava um pocuo mais racional e coerente do que antes, tendo finalmente sido forçado a tomar uma xícara de café -, nada tão trivial. Nada assim tipo isso tão compreensível. No mundo dele, as pessoas são pessoas. Os líderes é que são lagartos. As pessoas odeiam os lagartos e os lagartos governam as pessoas.
Ué – comentou Arthur -, achei que você tinha dito que era uma democracia.
- Eu disse – afirmou Ford. – E é.
- Então – quis saber Arthur, torcendo para não soar ridiculamente estúpido -, por que as pessoas não se livram dos lagartos?
- Isso sinceramente nunca passou pela cabeça delas – disse Ford. – Como elas têm direito de voto, acabam supondo que o governo que elegeram é mais ou menos parecido com o governo que querem.
-Quer dizer que eles realmente votam nos lagartos?
-Ah sim – disse Ford, dando de ombros -, é claro.
- Mas – perguntou Arthur, sem medo de ser feliz – por quê?
- Porque, se deixam de votar em um lagarto, o lagarto errado pode assumir o poder. Você tem gim?
-O quê?
- Eu perguntei - disse Ford, com um tom crescente de impaciência entranhando-se em sua voz - se você tem gim.
- Vou ver. Conte-me sobre os lagartos.
Ford deu de ombros novamente.
- Algumas pessoas dizem que os lagartos são a melhor coisa que já lhes aconteceu - explicou ele. - Elas estão completamente enganadas, é claro, completa e absolutamente enganadas, mas é preciso que alguém tenha a coragem de dizer isso.
- Mas isso é terrível - disse Arthur.
- Olha, meu camarada - disse Ford -, se eu ganhasse um dólar altairiano cada vez que eu ouvisse um fragmento do Universo olhando para o outro fragmento do Universo e dizendo "Isso é terrível", eu não estaria sentado aqui como um limão procurando por um gim.

Douglas Adams sambando na cara da sociedade.

E quando você começar sua busca pelo conhecimento do Guia, ouça seu coração e ignore a ignorância (oi?) ao seu redor. Pessoas dirão que o livro é pura ficção e entretenimento. Dirão que nada daquilo é real. Que eu devo largar o Guia e sair ao sol, pelo menos uma vez por semana. Que relógios digitais são uma boa ideia.

Não acredite nessa gente.

Em “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, aprendi algumas verdades sobre o mundo, e também que estou no setor mais sem graça do universo, onde a toalha não tem o seu devido valor reconhecido. E aprendi a temer a Chegada do Grande Lenço Branco. E aprendi qual é o sentido da vida.
Em “O Restaurante no Fim do Universo” eu tive uma aula de filosofia melhor que todas as que eu tive no colégio e na faculdade somadas. Descobri a verdadeira origem da girafa, e também quanto é seis vezes sete.
Em “A Vida, o Universo e Tudo Mais”, aprendi sobre como a sociedade funciona melhor do que qualquer sociólogo por aí poderia explicar. E que um sofá vermelho flutuando numa Terra pré-histórica tem mais importância do que você pensa.
Em “Até mais, e obrigado pelos peixes!” aprendi mais sobre física, química e astronomia que o próprio Mundo de Beakman pôde ensinar. E aprendi a rezar por Bob.
Em “Praticamente Inofensiva”, aprendi que nada é o que parece, e nem tudo tem o final que você deseja.
Em “E tem mais uma coisa...” eu não aprendi nada, pois ainda não li. Não foi escrito por Douglas Adams, e sim por Eoin Colfer
.
Espera, o quê? WTF?

Sim, isso mesmo. Parece que muita gente não ficou feliz com o final do quinto livro – também, pudera né? – e foi feito um concurso para escrever o último livro. A versão desse cara foi considerada a melhor versão pós-mortem literária já feita, e seu livro também é considerado um final alternativo ao quinto livro, o que é estranho, porque o quinto livro já é considerado um final alternativo para a série. Tudo, isso é claro, devidamente autorizado pela família Adams.
Aposto que foi ideia da Mãozinha, aquela sapeca...

...

Piada ruim, ok.


...


Parem de ficar me recriminando, podemos voltar ao texto!?


É sério, eu costumo recomendar essa série a qualquer um que saiba ler. Se você não gostar, por favor, não espalhe. Diga que você é analfabeto, diga que só lê em aramaico e não traduziram ainda, diga que se não puder ler ao contrário sem aparecer uma mensagem do demônio não tem graça, DIGA QUALQUER COISA, mas não diga que não gostou.
Por favor.

O que eu tento dizer nesse texto é que essa série me fez abrir uma nova categoria de livros na minha cabeça. A categoria “Estilo-Guia”. Bem ao lado de “Estilo-Luis-Fernando-Verissimo” (na minha opinião o único que poderia se equiparar a Douglas em humor).
Talvez por isso eu relutasse tanto em assistir ao filme. Afinal, como poderiam traduzir em imagens, por exemplo, toda a indignação que Wonko, o São, sente pela humanidade? Como explicar a vidinha pacata que Arthur tentava levar pela galáxia, sem perder pelo menos quarenta minutos de explicações?
Tinha medo, muito medo...

 Mas após muita insistência, dois litros de vodka e sutis ameaças de exposição pública de certas fotos íntimas, eu finalmente aceitei, esperando qualquer coisa dessa película. Qualquer coisa mesmo. Se a Samara saísse da tela eu não me surpreenderia.
E enquanto todos ao meu redor riam às lágrimas com Zaphod, ou se indagavam sobre a criação do motor da improbabilidade infinita, eu me peguei admirando e babando em silêncio sobre a genialidade sem fim de Adams; como ele conseguiu fazer uma sinopse de cinco livros com assuntos aparentemente sem nexo, e transformá-los em um filme que fizesse sentido; como ele teve a grande sacada da Arma do Ponto de Vista e dos seres Perseguidores de Ideias no solo de Magrathea; como o filme conseguiu caracterizar os vogons à perfeição; como diversos símbolos dos livros foram inseridos, mesmo sem terem conexão com a história do filme (os caranguejos feitos de pedras preciosas e a estátua de Arthur que Agrajag fez sequer são mencionados pelos personagens, mas estão lá); como ele conseguiu até mesmo colocar alguns velhos clichês cinematográficos aparentemente obrigatórios (por favor, acha mesmo que Douglas Adams iria fazer espontaneamente um final tão ruim assim para Arthur e Trillian?), e ainda assim arrancar aplausos da plateia.

Não estou dizendo que o filme é uma alternativa à série. Isso nunca aconteceu, exceto em Game of Thrones. Mas supera as expectativas, e ainda assim com certeza é um filme diferente de todos os outros.

Talvez O Guia do Mochileiro das Galáxias seja que nem os Simpsons. Tem que ter um motivo muito bom para não gostar. Como ser um vogon, sei lá.
Com certeza a conversa mais interessante do mundo seria entre House, Douglas Adams, Luis Fernando Verissimo e Homer Simpson. Principalmente porque a parte de Adams teria que ser mediada por um médium(oi?²), já que ele morreu no dia 11 de maio de 2001. E o mundo chorou com isso. E todos se uniram e elevaram suas varinhas aos céus em direção à Marca Negra de Voldemort para fazer uma homenagem a um dos maiores gênios da humanidade, criando o Dia da Toalha. O dia 25 de maio foi escolhido tanto porque foi a data do lançamento do livro quanto para fazer uma junção com Dia de Star Wars (quando estreou o primeiro filme, em 25 de maio de 1977) e também pelo "Glorioso 25 de Maio" para os fãs da série Discworld; tudo isso juntou-se dando origem à Santíssima Trindade do Dia do Orgulho Nerd. No caso do Guia, dia pessoas desfilam com suas preciosas toalhas - essenciais para um mochileiro das galáxias - por aí. 
(Não SÓ de toalha, por favor, que esse mundo ainda é um mundo de família.)
 Simples, e ao mesmo tempo simboliza a importância que O Guia do Mochileiro das Galáxias tem para nós: nos sujeitamos a ser linchados na rua só para declarar o nosso amor.
Parabéns, Douglas Adams. Feliz Dia da Toalha pra você, e Feliz Dia do Orgulho Nerd a todos nós.


Título: - O Guia do Mochileiro das Galáxias(The Hitchhiker's Guide to the Galaxy)
- O Restaurante no Fim do Universo (The Restaurant at the End of the Universe)
- A Vida, o Universo e Tudo Mais (Life, the Universe and Everything)
- Até mais, e obrigado pelos peixes! (So Long, and Thanks for All the Fish)
- Praticamente Inofensiva (Mostly Harmless)
- E tem outra coisa...(And Another Thing)
Autor: Douglas Adams (o livro 6 foi por Eoin Colfer)
Tradutores: Marcia Heloisa Amarante Gonçalves, Carlos Irineu da Costa e Paulo Fenando Henriques Britto
Editora: A primeira edição dos 4 primeiros livros foi lançada pela Editora Arqueiro. A reedição e os livros 5 e 6 foram pela Editora Sextante.
Ano: 1º: 1979 - 2004
2º: 1980 - 2004
3º: 1982 - 2005
4º: 1984 - 2005
5º: 1992 - 2006
6º: 2009 - 2011
Motivos para dar de presente: eu tenho 42 ótimos motivos para dar, mas não me pergunte por quê.