quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

A Experiência #3: Um (não tão) Pequeno Causo Literário



- Ei, você!
- Ã?
- Ei, olha pra mim! Eu sou bonito e atraente! Me leva pra casa?
- Ahn, olha... pessoa, você deve estar me confundindo com alguém. Alguém que veja você, por exemplo.
-Eu então!
-Eu quem?
- Eu sou mais bonito! Olha o meu título, ele é composto de apenas uma palavra, assim fica fácil pra você guardar!
- Mas o que...
- Não, não, me compra! Eu tenho uma foto de uma garota anoréxica olhando para o nada com a expressão de quem acabou de se drogar e está tentando se lembrar do nome das Sete Maravilhas do Mundo Moderno. É suuuuuuuuper cool!
- Eu sou melhor, eu tenho anjos caídos!
- Eu também! E vampiros!
- Eu também! E lobisomens!
 -Eu não, meus personagens são gente normal, mas eu digo que um cara com traços de sociopatia obcecado por uma mulher egoísta e covarde daria uma boa história de amor!
- Me poupe, você é igual a toda comédia romântica.
- Gente, gente! Chegou um novo!
- Ah coitado.
- Argh, ele é um daqueles que tem desenhos fofinhos na capa. Odeio desenhos fofinhos na capa. Especialmente melancias, chocolates e férias.
- O que vocês vão fazer com ele?
- Já viu um viciado em McDonald’s no meio de uma tribo canibal?

Pobrezinho. E ele parecia tão animado.

- Oi! Eu sou o mais novo livro de autoajuda que saiu, e estou aqui só pra te ajudar! Quer me comprar?
-RÁ! Na minha época livro de autoajuda tinha vergonha de se mostrar.
- É, precisa ter muita autoestima pra ler uma coisa que diz que você não tem inteligência, não sabe conquistar ninguém, não se encaixa nos padrões de beleza, não está no emprego que gosta, não sabe o que fazer pra mudar isso e ainda assim não se matar.
-Meu amigo, desista. Já inventaram um negócio muito melhor pra dizer o quanto a pessoa é imbecil.
-... É?
- Sim, se chama qualquer um. É meio inovador pra você, eu sei, mas  qualquer um que ler você vai perceber que é desajustado. Logo, você é totalmente inútil.
- É, no dia que aparecer alguém completamente bem-sucedido de acordo com qualquer livro de autoajuda, eu juro que me jogo no tanque de reciclagem.
- Pra fazer parte da nova tiragem de Crepúsculo? Hi, hi, hi...
- Gente, gente, pega leve. Olha novato, vou te dar um conselho: dá um jeito de ficar ali do lado daquele livro de capa com alguns tons de cinza. Cedo ou tarde quem compra aquilo vai precisar de você...
- Ei, eu ouvi isso!
- E daí? Vai bater na gente? Mas você não bate só em quem gosta de ser humilhado?
- Pelo menos eu estou na lista dos mais vendidos, há-há.
- Querida, até o Felipe Neto já falou mal de você. Isso é pior que o fundo do poço.
- Ei vamos humilhar uma publicação por vez, ok?

- Mas eu trago dez passos simples para...
- Resolver todos os problemas frutos de uma sociedade problemática? Solucionar os traumas psicológicos do leitor? Proporcionar uma resolução diferente do que qualquer coisa que dizem nas propagandas de camisinhas e absorventes por aí?
- Não dê ouvidos a ele, Freud – Uma biografia. É só um livro de autoajuda, deveria estar na seção “amadores”, para começo de conversa.

Um bate-estaca atravessou as estantes.
- Ai! Quer deixar a gente surdo?
- Olá! Eu acabo de trazer toda a vida e história do mais novo astro da música pop! Como ele não tem tanta história assim, eu uso a técnica da revista de fofoca: três páginas de fotos, um texto de dez linhas com letra tamanho dezesseis; três páginas de fotos... Você precisa de mim, você tem que ser fã de verdade do seu ídolo!
- O dia mais triste da vida desse cara foi quando o hamster dele morreu. Me poupe.
- Eu sou melhor, minha história é sobre uma menina, contada na primeira pessoa. Não é legal?
- A sua personagem é apenas uma projeção patética do que você gostaria de ser. A MINHA personagem pelo menos é uma super vampira com poderes sobrenaturais que tem que salvar o mundo da sua mestra maligna, e tem deuses antigos, lendas indígenas, rituais mágicos, dramas adolescentes e...
- É, ela tem que salvar o mundo, mas todo diálogo dela com alguém é sempre sobre o mais novo cara que ela conheceu e instantaneamente se apaixonou por ela. Inclusive ela mesma diz “O que não sai da minha cabeça e sempre me dá problema? Garotos, claro.” O que é a luta do Bem contra o Mal perto da possibilidade de dar uns amassos né?
- Não, EU sou melhor. Minha história é sobre uma menina, contada por um espírito. Não tem como ser superior a isso.
- Se você é um espírito, por que não se ocupa com coisas do tipo revelar o sentido da vida ou pra onde a gente vai quando morre, ao invés de contar histórias ruins que nem sucesso direito fazem?
- Ah, cala a boca. A sua personagem paga de mulher independente, mas assim que o namorado dá o fora nela ela fica suicida até outro homem vir em seu resgate, hahaha!

Eu até tentei falar alguma coisa, mas um livro com capa imponente gritou pra mim, com voz de bárbaro:
- E o que você acha de mim? Eu tenho uma boa história, mas faço parte de uma saga de vinte e sete livros. Você tem planos pro seu salário?
-Meu querido, hoje em dia é praticamente lei que você faça parte de uma saga de vinte e sete livros. Eu pelo menos sou interessante, peguei fatos históricos e os distorci até parecer que existe uma super conspiração mundial!
- Olha, se existe a lei de que haja uma saga de vinte e sete livros, no mínimo existe um acordo de cavalheiros de que sua história precisa de uma conspiração mundial. Ou universal, depende. Você trabalha com ETs?
- Você conseguiu um triângulo amoroso entre pelo menos quatro raças de monstros diferentes? Eu consegui. RÁ!
- E eu? Eu tenho um cara lindo e misterioso que surge de repente na vida de uma garota simples e aí...
- Me deixa adivinhar: ele é um ser que era um monstro terrível e sanguinário no antigo imaginário popular, mas por conta da modernização da literatura ele passa a ser charmoso e bonzinho?
- Se você disser que eles se apaixonam também, eu te jogo no triturador de papel.

Depois daquilo a discussão baixou o nível – alguém chamou a mãe de alguém de papel higiênico – e eu resolvi andar discretamente pela livraria procurando o que eu queria. Passava o olhar por todas as estantes, mas não me atrevia a pegar nenhum daqueles livros exaltados. Os religiosos tinham voz muito parecida com o Padre Marcelo, enquanto que a maioria dos infantis insistiam em dizer que vovô vê a uva; os biográficos liam solenemente trechos supostamente importantes (os autobiográficos tentavam ler mais alto e tinham um tom de arrogância que sempre desconfiei que tivessem) e a banca de revistas se dividia entre gritos japoneses, rangidos de carros e gemidos.
Até que eu o vi. Ele estava meio esquecido numa estante, sua lombada empoeirada indicando que ninguém passava por ali. Mas ele me olhou.
Não vou dizer que foi amor à primeira vista, porque não foi. Foi química, foi desejo. Me aproximei devagarinho. Sua lombada era deliciosa de ser tocada, sem aquelas baboseiras em alto relevo que tem aparecido por aí. Passei a mão por suas páginas. Quase salivei quando vi que não tinha sinopse na contra-capa. Um título simples, misterioso. O desenho na capa nada revelava. Nunca tinha ouvido falar do autor.
Como um desconhecido estava me seduzindo tanto assim?
Mas ainda tive dúvidas, nunca tinha feito isso. E se eu não gostasse? E se fosse ruim?
Ele então piscou pra mim. Seguro. Sedutor.
Atravessamos a livraria nos braços um do outro, ignorando os olhares e os gritos dos outros.
Paguei.
Fomos para minha casa.
 Fomos para o meu quarto.
Tivemos uma noite de leitura casual arrebatadora.
Pela manhã, ele havia sumido. Provavelmente estaria apenas debaixo da cama, mas foi pura e simples leitura casual.


Imbecis e sua mania de nunca perguntar o que a gente quer.

domingo, 16 de junho de 2013

Experiência #2: Crônicas Universitárias

Fatos absolutamente reais.


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Tenho duas professoras especiais: a Cleoci e a Cleonilce.

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A Cleoci tem duas aulas por semana, mas ela raramente passa de uma hora.
A Cleonilce tem quatro aulas por semana, e ela sempre toma o nosso intervalo.

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- Por que a turma inteira faltou na semana passada?
- Porque era dia de trote, professor, o curso inteiro foi pra rua.
- Ah... A turma inteira?
- O curso todo.
- E ninguém veio pra aula?
-... Não.
- Bom, a primeira aula seria só uma apresentação, mas como não teve aula semana passada, então meu nome é Tadeu, eu dou a disciplina de Tricô Avançado. Aqui está meu plano de ensino. A aula de hoje está encerrada.

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Uma vez eu fiquei de exame em Métodos de Tortura Medieval Chinesa por 0,2 ponto. Não foi por 68 (a média é 70), foi por 69,4. Então eu fui lá reclamar. Precisava de 0,6 ponto na última prova para alterar a média final para 70.

- Professor, posso ver minha prova?
- Claro! Veio reclamar de novo?
- Poxa, profe, meio ponto!
- É a vida, desculpa.

...

- Professor, porque você me deu metade da nota nessa questão?
- Ah, você respondeu tudo?
- Sim, tá aqui, olha!
- Ok, meio ponto, então.

...

- E nessa, profe? A resposta tá inteira aqui! Porque 0,9?
- Você acha que a resposta está completamente certa? Tudo bem, 1,0 inteiro se você quiser.

Pronto, eu tinha meus 0,6. Feliz, já ia me levantar quando ele me chamou.

-Ah, nessa outra questão aqui você só respondeu metade, mas eu te dei um ponto inteiro porque estava bonzinho. Porém, já que estamos revisando sua nota, nada mais justo do que dar o que você merece, certo? Então, vamos ver... hum... meio aqui, menos aqui... você aumentou um décimo na sua nota. Parabéns! Ahn... Seus olhos estão ficando meio vermelhos, acho que você deveria lavar o ros...

Então eu virei a mesa, prendi a cabeça dele na copiadora, seu pé no triturador de papel, invadi o laboratório de química, joguei ácido sulfúrico na cara do professor que me reprovou ano passado e aproveitei pra roubar ácido nítrico e glicerina – obrigada Tyler Durden -, tranquei a porta do colegiado com todos lá dentro e explodi o prédio. Depois atravessei o corredor dos alunos que me aplaudiam e queimavam seus livros em comemoração, fui pra cantina e dando gargalhadas histéricas, roubei uma coca e saí com cabelos ao vento, sorriso no rosto e uma katana nas costas, em paz por ter realizado minha boa ação do dia.

- Sarah? Você está bem? Faz cinco minutos que você não pisca...
(continua)

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A Cleoci fala tanto e tão rápido que mal dá tempo de levantar a caneta do caderno.
A Cleonilce explica, pergunta “Entenderam?”, explica de novo, e daí explica mais uma vez. Se alguém foi ao banheiro por dois minutos ela explica de novo. Na próxima aula ela faz um previously que dura 50 minutos, em média.

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Aliás, eu já contei a história do meu guarda-chuva?
Lá estava eu, em um lindo dia de tempestade, indo pra faculdade sem guarda-chuva, é claro.

Nunca andei de guarda-chuva. Sempre achei coisa de mamães e vovós, assim como comer couve. Apenas mãe gostam de couve!

De qualquer forma, agora que estou relembrando aquele dia, a faculdade estava especialmente sinistra aquela tarde. O caminho que eu costumo percorrer, desde o portão até a cantina onde eu vou vadiar estudar estava completamente vazio,  um longo corredor escuro cheio de portas fechadas, lodo nas paredes, gritos nas masmorras, arrastar de correntes, essas coisas rotineiras.
E uma coisa bateu no meu pé enquanto eu descia a escadaria.


...


JURO que a primeira coisa que me passou pela cabeça foi isso:


 o.O
 Enfim, eu respirei fundo, e como nenhum tentáculo saiu do cimento pra me arrastar ao inferno, eu continuei descendo as escadas.
Elas estavam estranhamente mais longas naquela tarde. E vazias, obviamente.
Chegando na cantina todos os meus amigos e colegas de turma estavam lá, o que é muito mais estranho, uma vez que o tempo não havia mudado desde que eu terminei de descer a escadaria de SantaHelena, e quando cai um pingo d’água em Florianópolis ninguém vai pra aula.
Foi assim que eu descobri que tinha prova.
(continua)

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A Cleoci aterroriza a gente pra prova, e pergunta coisas como “quanto é 2+2?” e derivadas.
A Cleonilce diz que vai ser facim, facim e pergunta coisas como integrais e derivadas.

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Então, depois de entrar em depressão por descobrir que eu tinha sonhado com explodir o prédio, eu decidi protocolar um pedido de revisão da prova.
Pra começo de conversa, é quase uma peregrinação à Meca andar por aquela universidade. Você tem que ir ao colegiado ver se precisa protocolar. Pra ir do colegiado até o protocolo, tem que subir a Escadaria dos mil degraus, atravessar a Floresta Sem Caminhos, passar pelos prados americanos, pegar uma balsa, chegar antes que o helicóptero decole e contratar um índio como guia.
(O caminho que esse protocolamento segue é maravilhoso também, merece uma postagem própria com direito a câmera noturna, chip de rastreamento etc)
Beleza, cheguei lá, protocolei, tudo nos trinks. Trinta segundos depois de sair da sala, comecei a me questionar se adiantaria alguma coisa protocolar, uma vez que o prazo é de dez dias, e o exame seria dali a quatro. Então decidi ir na secretaria do curso (o pedido passa por lá antes de chegar no colegiado) ver quanto tempo demoraria pro meu pedido ser considerado.

Chegando na sala, tinha uma mocinha lá. A seguinte cena aconteceu:
- Oi, eu queria ver quanto tempo demora pro meu pedido de revisão de prova chegar no colegiado.
- Não sei... Preciso ver aqui no livro de registros se ele já passou por aqui.
- Mas eu acabei de protocolar o pedido!
- Mas pode ter chego, eu preciso verificar.

Eu pensei em mágica, correio-coruja, teletransporte, internet, QUALQUER COISA, exceto um livro de verdade. Afinal, eu não me lembrava de ter passado por um portal que me levasse pro futuro, então realmente não dava tempo do pedido chegar. A não ser que entregar protocolos fizesse parte do cooper vespertino da tia da secretaria, identidade secreta do Flash.
A mocinha realmente pegou um livro. UM LIVRO! Provavelmente estava registrada toda a história da Terra lá! Ela abriu (uma nuvem de poeira cobriu o ambiente) e foi folheando calmamente.
- Deve estar por aqui em algum lugar...

(“O primeiro ser pluricelular apareceu, imediatamente sentindo o preconceito por parte dos seres unicelulares”)

- Olha, não precisa procurar, não deu tempo de chegar ainda!
- Ué, você não queria saber quanto tempo demora até chegar no colegiado?

(“ O surgimento do oxigênio na atmosfera provocou uma onda de protestos entre os seres anaeróbios, que marchavam carregando cartazes contra a respiração aeróbica obrigatória”)

- Sim, mas eu acabei de sair do protocolo!
- Então, eu preciso saber se já chegou o pedido.

(“O primeiro tetrápode foi recebido com gritos de ‘Traidor!’ pelos outros aquáticos”)

- Mas não tem como ter chegado!
- Como você sabe? Eu ainda preciso verificar!

Quando ela passou por uns rabiscos (“Babilônia V1D4 L0K4”), eu desisti. Murmurei um obrigada e entreguei pros deuses. Quando olhei pra trás ela parecia bem interessada na invenção do kama sutra.

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- Bom, tá na hora da aula, até mais galera.
- Ow Castanha, não esquece teu guarda chuva que caiu da mochila.

(música dramática)

Olhei pro chão, e lá estava ele. Olhando pra mim. Me senti  o próprio Harry Potter sendo escolhido pela varinha. Juro que ouvi até uns sussurros.

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A Cleoci em média, passa cinco capítulos do livro por aula.
A Cleonilce levou um mês para terminar o primeiro. Capítulo.

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Foi o guarda chuva que mais ficou comigo. Nunca descobri como ele foi parar lá, mas ele sempre estava misteriosamente enganchado na minha mochila quando começava a chover.
Dizem que eu perdi ele quando fui pra uma loja, um dia desses. Eu prefiro pensar que ele cumpriu sua missão, eu aprendi a lição da minha vida e ele foi iluminar outra pessoa.
Agora só preciso descobrir o que eu aprendi.

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Eu decidi me rebelar e não estudei pro exame. Claro que as únicas consequências viriam pra mim, mas o ato em si era puramente simbólico.  Até que um dia antes do exame me encontrei com o professor. Ele só disse:
- Já viu sua nota final?

 ...

7,0.

O sistema arredonda 6,5 automaticamente pra 7.

Senti como se tivesse ganhado o Blastoise.


Quem disse que a vida universitária é só desgraça?

quinta-feira, 2 de maio de 2013

O Último Homem


Boa noite meus fiéis! Como passam? (Presumindo que ainda são meus fiéis, é claro)

Querem ler a desculpa de hoje da demora de atualizações, claro que sim, vamos lá.
Aparentemente agora que eu tenho uma feitora assessora, ela “sugeriu” e eu quero que vocês reparem bem nas aspas, que eu fizesse reviews intercaladas com textos próprios, e se eu me comportasse bem e não mordesse ninguém, teria permissão de escrever algum especial de vez em quando. Então, feliz da vida, fui escrever sobre “Desventuras em série”, de Lemony Snicket. Trabalhei no meu texto com tanto afinco quanto naquela vez em que fiz um castelinho de areia perto do mar e na primeira onda eu chutei o monte e comprei um picolé; mas então descobri que existe uma autobiografia não autorizada de Snicket que é essencial para entender as desventuras, então decidi adiar para quando alguém me der essa biografia de presente.
Alguém.

ALGUÉM.

ALGUÉM!

...

Aceito presente repetido.

Enfim, desanimei totalmente e minha cabeça ficou muda, sem ideia nenhuma.
Até que eu descobri essa HQ.



Sim, é história em quadrinhos. Não, HQ não é coisa pra criança. Sim, quadrinhos são aqueles da Turma da Mônica. Não, quadrinhos sérios não são apenas uma exceção por aí. Tem muita edição por aí que é mais madura e bem construída do que qualquer livro, digamos, do Paulo Coelho. Duvida?

Sabia que o filme V de Vingança foi baseado em uma HQ de apenas cinco números? É. Vai dizer que é pra criança um filme com essa cena?
Sabia que Watchmen foi baseado em uma HQ de apenas doze números? É. Vai dizer que é pra criança um filme com essa cena?

Agora que já estamos tão esclarecidos como um déspota em 1750, vamos à review.
Imagine um mundo sem o cromossomo Y.




The Last Man. O Último Homem.
Uma praga assolou o mundo e em alguns segundos matou todo mamífero macho da face da Terra, seja adulto, filhote, feto, embrião ou espermatozoide Y. Isso inclui, claro, a raça humana. Todos mortos, exceto um rapaz chamado Yorick Brown e seu macaco capuchinho, Ampersand (sim, o nome do macaco é &). Sozinhos num mundo de mulheres. Caos.

Inicialmente, eu nunca recomendaria essa série para ninguém. Ela parece trazer ideias bastante extremistas, sexistas e até machistas.

Apenas um homem consegue salvar a pátria X não precisamos de homens para viver.

Devo dizer que fiquei feliz como um aluno da Lufa-Lufa quando o Cedrico ganhou do Harry no quadribol quando descobri que... Não é assim. Ela vai muito além. É completamente feminista.
(Aliás, já perceberam que o personagem Spartacus, da série que acabou recentemente, também é feminista? Asérie não, mas o cara em si, sim, e muito)

(Adendo: para evitar alguns xingamentos desnecessários, recomendo a leitura calma e sem preconceitos de qualquer um destes textos. Mas se vocês não tiverem paciência, uma olhadinha rápida nesse tumblr aqui já ta bomdimaisdaconta.)

Viram? Leram? Ignoraram? Deslumbraram? Então tá.

Dá pra começar a análise com uma pergunta:

Como seria ser o último homem da Terra?

Pra muitos e muitos homens seria o Paraíso. Imagina só, todas as mulheres do mundo só pra você! Nenhum macho para competir, escolher à vontade, e ainda tem a mamãe pra te dar colinho e leite quente no fim do dia. Perfeito, não?

Não. Ainda bem que Brian K. Vaughan, o genial criador da série, fez questão de deixar algo claro já na primeira edição.
Um mundo com apenas um homem – mesmo que seja o Robert Downey Jr ou o Neil DeGrasse Tyson – seria uma merda. Na verdade, ele nos dá uma pequena dimensão de como o mundo está estruturado praticamente por homens, nesta página:


É de se imaginar que no caos que tenha se instalado logo após o generocídio, as mulheres não estivessem exatamente receptivas para competir na unha quem seria a escolhida. Na verdade, como obras da ficção tem nos mostrado constantemente, - The Walking Dead e Falling Skies - em casos de apocalipse ou semi-apocalipse, as pessoas tendem a despirocar de vez.
Para ser mais clara: 90% das mulheres restantes, quando ficam sabendo que ainda resta um falo vivo no mundo, querem trucidá-lo; umas duas querem transar com ele; o resto não se importa nem um pouco.
Apenas três se dispõem a protegê-lo, deixando claro que é tão somente pelo futuro da humanidade.
Por quê?
Porque Yorick é um babaca.
 Ele tem uma namorada – que agora está perdida pelo mundo – é arrogante e preconceituoso em vários momentos, não tem a menor ideia do que fazer da vida, era paparicado pela família, imaturo, irresponsável e com um certo comportamento suicida. Tanto que uma agente especial foi designada pelo governo americano para protegê-lo, porque foi deixado bem claro que ele “não duraria cinco minutos lá fora”.
Essa agente, chamada apenas de 355, é uma das personagens mais fortes e capazes que já conheci. Tenho certeza que ela bateria no Stallone (jovem) sem grandes problemas. E por ser forte e fazer parte de uma agência de guerra, 355 já viu e fez muitas coisas na vida, coisas que ela com certeza preferiria esquecer. Ela e Yorick são de idades próximas, mas essa experiência e maturidade tão disparatadas faz com que o relacionamento dos dois seja bem instável. Ainda bem que o amadurecimento do Yorick foi uma das linhas mais bem traçadas na série. É marcante como o auto-intitulado "Mago das Escapadas" (ele é um ilusionista amador) vai ficando mais velho e duro conforme o tempo passa.
E por favor gente, 355 é dona da frase mais badass da história dos quadrinhos:


"Fuck you", ela diz em seguida *-*

Confesso que também não senti muita falta de personagens masculinos no enredo. Primeiro porque tem bastante flash-backs de cada personagem relevante; segundo que os tipos femininos conseguiram suprir muito bem todos os caricatos masculinos.
Um ninja mortal e misterioso? Tem.
Um cientista brilhante meio louco que é de certa forma responsável pela destruição do mundo? Check.
Traidores? Um por página.
Soldados/terroristas que querem destruir o mundo? A-hã.
Espiões? Opa.
Conquistadores baratos? Pfff.
Líderes extremamente manipuladores e carismáticos que conseguem arrebatar multidões para uma causa claramente autodestrutiva?









E religiosos fanáticos?
É interessante ver como um apocalipse pode mudar a cabeça das pessoas. Em TLM, a maioria das mulheres vira ou ateia (como um Deus pode nos privar da missão mais básica da Bíblia, crescei e multiplicai-vos?) ou fanática (todos os homens mereciam morrer para Deus purificar a Terra). A HQ mostra basicamente a reação da Igreja Católica, que é bem patriarcal. Inclusive, essa é uma das partes mais críticas e inteligentes da série.  Mas são raras as religiões não-patriarcais, e eu senti falta da abordagem de outras, deu a impressão que a católica é a pior Igreja de todas.

Eu tinha dito que três mulheres se dispõem a defender Yorick, não? Pois bem, a terceira é a Dra. Alisson Mann, uma cientista brilhante que se culpa pela praga sabe-se-lá-por-quê. Ela defende o garoto apenas por interesse científico: ela quer cloná-lo e salvar a raça humana.
Ela nunca sorri.
 Enfim, é complicado falar sobre TLM. Primeiro porque a trama é tão perfeitamente amarrada que qualquer fato implica em falar sobre outro fato, que implica em falar sobre outro, e outro, e outro e daqui a pouco você perde o controle e já diz que ele morre no final e quem mata é o Coronel Mostarda, na biblioteca, com o candelabro. Mas eu juro pra vocês que apesar de toda a análise política que eu fiz, vocês não vão notar a pregação. Exceto em uma ou outra parte, quando mostra alguns discursos de mulheres misândricas que matam outras mulheres cujo crime era não achar que todos os homens do mundo eram uns crápulas sem coração e mereciam morrer. Eu devorei todas as 60 edições em três dias simplesmente porque não consegui parar de ler. E antes que vocês me perguntem, não, ninguém descobre o por que da praga – apenas algumas teorias cabulosas circulam por aí – mas a história não é sobre isso, e ainda bem que não tentaram explicar. Ou alguém realmente ficou feliz quando George Lucas explicou o que era a Força? Não, algumas coisas é melhor não explicar. Ninguém quer saber.

E o final... Ah, só podia ser aquele. Chorei, chorei, chorei, mas foi perfeito como o último capítulo de Friends. Nenhum outro se encaixaria tão bem.

Certo, vamos falarda nova Tecpix de coisas práticas agora: como adquirir e ler essa série.
Vida de leitor de quadrinhos no Brasil não é fácil. As edições demoram em ser traduzidas, em ser lançadas, em chegar às bancas de grandes cidades, em chegar às bancas de cidades que não são São Paulo. Há um desinteresse total das editoras em melhorar isso, porque elas alegam que “não há interesse dos leitores” e essa é a coisa mais ridícula que uma editora pode dizer. Quer dizer, elas vivem disso! Se não existe interesse por quadrinhos EM UM PAÍS INTEIRO, ela simplesmente toca o foda-se, beleza, deixa quieto, vamos ver se na Guiana Francesa alguém quer uma revistinha?
Aposto que em países onde ninguém conhece picolés de maçã também há um desinteresse total em picolés de maçã.
Caramba, se a Coca-Cola ignorasse cada país que não tinha interesse por ela, hoje em dia ela não seria uma empresa com capital maior que o PIB de alguns países!

Enfim, eu acabei baixando a série no 4shared por duas razões, mas não recomendo fazer isso por duas razões.

Baixei primeiro porque aparentemente foram lançados apenas os primeiros números aqui, não há previsão de lançar o restante em um futuro próximo, nem sonham em lançar na minha cidade, eu não tenho dinheiro pra viajar só pra comprar e não aguentaria esperar a boa vontade dos editores pra ver se eles lançam o restante. Segundo porque Yorick faz tanta piada referencial - ele é muito nerd - que eu não entendo metade do que ele diz, e os fãs que traduzem são uns lindos, eles explicam cada referência bonitinho pra gente entender, coisa que dificilmente a tradução oficial faria. (outra coisa que dificilmente a oficial faria seria traduzir os palavrões, porque aparentemente a população brasileira sofre de uma terrível doença em que falamos palavrão normalmente, mas se ouvirmos alguma obra de fora, seja cinema ou literatura com um simples ‘porra’ temos um ataque epilético instantâneo)
Mas não recomendo baixar, primeiro porque se todo mundo o fizer, o desinteresse das editoras vai continuar ou piorar. Temos que incentivar os lançamentos, dizer “ei, não só as crianças gostam de ler gibi, a gente também! Manda pra cá!”
Segundo, porque é realmente difícil ter que ler atraz, faser,  mais, etc. Coisa que dificilmente a tradução oficial teria.
Mas ainda vale a pena!
 Título: Y - O Último Homem ( Y - The Last Man), 60 edições
Autor: Brian K. Vaughan
Desenhistas: Pia Guerra, Goran Sudzuka, Paul Chadwick
Tradução: 
Editora: Vertigo (a Panini Comics comprou os direitos no Brasil)
Ano: 2002 - 2008
Motivos pra dar de presente: pra quem gosta de ler, mas não muito; e é ótimo pra aprender que não existe só Mônica e Cebolinha no mundo...
EM TEMPO: sabia que a desenhista chefe da série, Pia Guerra, é uma das poucas mulheres do ramo?

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Experiência #1 : A Volta dos que Não Foram


Uau, eu tenho um blog!

É, difícil lembrar disso de vez em quando. Principalmente quando de vez em quando eu resolvo dar um tempo nas postagens.
Ou quando esse dar um tempo vira quase um ano e o de vez em quando vira nunca.
Mas eu voltei. Voltei! E melhor ainda: agora eu tenho uma assessora de imprensa!

...


É, aparentemente eu tenho uma preguiça incurável, que me impede de postar e escrever com a frequência de uma pessoa normal... Embora nesse mundo uma pessoa normal escreve textos com a mesma frequência que eu no último ano, então anulei minha frase totalmente. Mas ainda tenho uma preguiça incurável, então não anulei totalmente, a não ser que meu futuro chefe esteja lendo isso, nesse caso eu anulei totalmente sim, e sou uma pessoa extremamente disposta, cooperativa e adora fazer relatórios, certo? Não, não quer dizer que goste de fazer relatórios a minha vida inteira, eu só não tenho preguiça de fazer aqueles grandes e entedian...

Quer saber? Esqueçam o último parágrafo. Eu tenho uma assessora de imprensa que vai divulgar isso aqui, sou uma diva, só preciso me preocupar em escrever rápido o bastante pra ela não me comer o fígado.
Enfim, eu tinha uns cinco textos começados. Na verdade, se alguém um dia for atrás de mim, me achar, me matar, conseguir separar meus braços, pegar meu computador, descobrir a senha e fazer uma peregrinação de pastas atrás de pastas, vai ver que eu tenho mais de vinte começos de textos, crônicas, livros de fantasia e ficção científica, todos esperando seu fim... Sendo esse fim um ponto final ou a lixeira. E estava na dúvida sobre qual resenha escolher, mas como agora tenho uma dona assessora, ela disse “bota um texto seu”.
Não, na verdade ela disse "bota um texto seu".
E eu temi por minha vida. Sério.

E porque eu gosto de melancia, Friends, Joseph Gordon-Levitt e principalmente de continuar respirando, docilmente aceitei, e agora vocês vão ler, em primeira mão, a minha primeira experiência publicada. Eu escrevi numa época cheia de provas, stress, barulhos, raiva e...
Quer saber, foda-se, eu acabei de inventar isso aí.
E lembrem-se que eu sou uma jovem e extremamente promissora escritora em início de carreira, elogiem-me, por favor. Gente jovem e arrogante não gosta muito de críticas abertas. Me mandem por inbox.
Ah, e também não tem título. Sou péssima em dar títulos.



Nasci no dia mais quente do ano. No dia mais quente da década. Tão quente que ninguém ficou em casa naquele dia. Foi o dia mais barulhento do ano.
E eu odiei cada barulhinho.
Fui um bebê silencioso. Nos primeiros dias meu pai perguntou “o que esse troço deveria fazer, afinal?” Minha mãe vivia discretamente me cutucando pra ver se ainda estava vivo; meu irmão uma vez tirou minha fralda pra ver se não estava com a pilha fraca. Fui silencioso, mas bastava abrir a porta do meu quarto pra eu acordar.

Fui uma criança silenciosa. Os professores sempre levavam um ano ou dois não pra aprender meu nome, mas sim pra notar que eu estava ali. Geralmente as aulas iam até a metade do ano assim: 
-Caetano?
-Presente.
-Camila?
-Presente.
-Carlos... Carlos Oliveira?
- Presente.
(Minha voz nunca foi mais que um sussurro.)
- Oh, olá Carlos. Transferido?
- Não.- Ahnn, mas é novo aqui, certo? Posso jurar que nunca te vi por aqui.
-Professor, estudo aqui desde o primário...

-Ah, ok. Onde eu estava... Ah, sim. Carlos Oliveira?
-Presente, professor.
- Oh, olá. Você é novo aqui?
 Todas as aulas. Em abril já respondia a chamada mostrando meu histórico escolar pra provar que sempre estive ali, na mesma carteira inclusive. E claro, odiava qualquer conversa na sala. Odiava o recreio com aquelas crianças pulando e gritando. Odiava a biblioteca com aquelas pessoas e sua mania de virar as páginas dos livros.

Fui um homem quieto. Meu irmão tinha a mania de assaltar a geladeira de madrugada, e seus passos sempre me acordaram, então assim que consegui um emprego saí de casa. Sempre morei sozinho, na rua mais barulhenta do país.
Certo, admito, podia ser uma rua normal. Mas cada vizinho tinha um cachorro. E um gato. Um papagaio não era raro.
Cada.
Vizinho.
E digo mais: havia uma lei municipal que dizia que se tivesse menos de vinte e sete pinschers por quadra todos os habitantes teriam que entregar seu primogênito para virar escravo nas minas da Mongólia.
Pelo menos era a única explicação que eu encontrei pra ter tantos ratos pinscher e chihuahuas na minha rua.
Mas verdade seja dita, havia cachorros grandes também, que graças à maldita física seus latidos mais graves podiam ser ouvidos a uma distância maior. Toda noite o líder dos gatos da cidade – que eu costumava chamar de Isaac Karabitchev – tentava reunir seu povo e montar um coral para cantar a trilha sonora de Cats. Mas os cachorros achavam que era na verdade arte interativa, e tentavam interagir seus dentes com o pescoço dos seus amigos cantores, ou no mínimo cantar também. Como muitos eram cachorros com um dom para a política, conseguiam ficar horas discursando entusiasticamente sobre como aquele coral era bom para a vizinhança, aproximava as crianças e fazia a felicidade do Velho Billy, que tinha um novo sapato pra roer toda noite. Meu sapato, aliás. Malditos, se duvidar eles vão receber a cada lua cheia seu peso em ração Pedigree do sapateiro.

Uma noite, quando uma gata cantava Memory na esquina, eu peguei todos os meus sapatos – podia imaginar o sapateiro saltitando de alegria, o desgraçado – saí na rua e atirei naquele coral, naquele comício e aproveitei pra atirar naquela maldita andorinha que tinha chegado da migração, não acertara seu fuso horário e sempre começava a cantar às quatro da manhã.

Fui preso. Por perturbar a paz. Maldita ironia da vida.

Achei que na prisão teria meu silêncio.  Mas o cara que estava comigo insistia em respirar a noite toda. E um cara com aquele nariz... Se eu tivesse gravado aquele ronco podia colocar no alarme de casa e quando um ladrão entrasse acharia que tinha invadido a casa do Darth Vader.
Me mudei centenas de vezes, mas acho que Isaac passou a me considerar seu ídolo de inspiração e carregava seu elenco aonde quer que eu fosse. Uma noite, fiquei sentado na cama pensando em todas as maneiras mais lentas de se matar um grupo de gatos, e claro, todos os cachorros fãs do show, quando de repente todos pararam. Meu deus, eu sou o Professor Xavier, pensei.  Acabei de matar todos os bichos da vizinhança telepaticamente. Já me preparava para matar aquelas andorinhas que nunca acertavam o relógio quando ouvi o Isaac dizendo “não, não ficou bom, vamos de novo! Um, dois, três e...”

 Uma vez deitei em uma igreja. Ali era silencioso. Tão silencioso que comecei a notar os barulhos da rua, algo que os gatos nunca tinham deixado antes. Mas que merda. Buzinas, freadas, o som alto de algum imbecil lá longe. Me levantei. Olhei para o altar.

"É demais pedir por uma noite de silêncio?"

Ninguém me respondeu. Deus deve ter achado que se ele fizesse algum barulho naquela hora eu virava ateu, e Ele não precisava perder mais um cliente.

Me mudei para o campo. Lá não tinha carros, música, gatos e cachorros.
- Não é agradável dormir com a chuva caindo?, perguntava a dona da pensão.
Mas quando caía ela batia insistentemente em uma folha embaixo da minha janela. Ploc ploc ploc ploc ploc ploc ploc ploc ploc ploc ploc(bis).
-Não é bom dormir ouvindo o vento, então?
Seria aquele mesmo vento que quando soprava fazia um galho de árvore bater na vidraça? Tap tatatap tap tap tap tap.
- Os grilos, senhor. Não são tranquilizantes?
Cricricricricricricricricricricricricricricricricricricricricricricri. Sem comentários.

Então eu ouvi falar de uma câmara que haviam inventado que era completamente isolada acusticamente. Se caísse uma bomba atômica do lado, a pessoa dentro não ouviria nada. Nada. Morreria, é claro, mas completamente ignorante sobre o que a atingira.
Vendi casa, carro, móveis, corpo, tudo, para comprar minha câmara. Quando o vendedor apertou minha mão  e mostrou meu pequeno paraíso quadrado, sorri. A última vez que tinha sorrido foi quando meu vizinho que ouvia sertanejo até as três da manhã foi assassinado.
Deitei lá dentro. As paredes eram brancas, teto branco, tudo branco.
Silêncio. Nem a mais pura das músicas já tocadas tinha um som tão doce quanto o silêncio.
Foi quando eu ouvi. Ele.
Não, por favor.
Ele de novo.
 
Não, não me tirem isso. Não o meu silêncio!
Ele mais uma vez. Maldito. Três vezes maldito.
Meu coração pulsava, feliz de ser finalmente ouvido pelo dono.
 

Me matei com uma overdose de remédios para dormir. Queria uma morte tranquila, indolor.
E silenciosa.
Minha alma foi subindo ao Céu. Eu vi todas as cores do Universo. Todas as estrelas. Todos os mundos. Mas acima de tudo, eu vi o silêncio absoluto. Nenhuma voz, nenhum miado, nenhum ploc ploc ou cricri. Nenhum som.
Finalmente estava em paz. Minha pobre alma torturada finalmente se permitiu um suspiro de alívio.
 E então, um anjo começou a cantar.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Feliz Dia da Toalha! Feliz Dia do Orgulho Nerd! - O Guia do Mochileiro das Galáxias


Só demorei pra postar porque minha vida tem tido um pouco de agitação ultimamente. Imaginem vocês que um dia eu estava na rua, encontrei uma moeda e... Enfim, fora ter que doar meu rim à máfia holandesa, está tudo bem agora.
Se vocês virem por aí um cartaz de “PROCURADA”, não sou eu, ok?

Muitas pessoas têm me cobrado para falar de várias séries. Harry Potter, Desventuras em série, A Herança (mais conhecida por ‘Eragon’), O Senhor dos Aneis, Morada da Noite (ok, esse ninguém me cobra)... Mas decidi por um bem mais hardcore. Para comemorar o Dia da Toalha. Agora vocês entenderão porque tinha gente por aí com uma toalha na mão. Não, não era uma festa do banho coletivo do qual você não foi convidado.

Na verdade, eu demorei pra falar sobre essa série, porque é preciso estar extremamente inspirada para isso. E, como a maioria das pessoas, eu sempre tive minhas melhores ideias enquanto tomava banho, então decidi levar meu PC para o banheiro, a fim de registrá-las.
Como qualquer pessoa normal faria.
 Postei sobre isso no facebook, pessoas comentaram, e não sei como, a conversa evoluiu para uma possível estreia minha na indústria pornô e a possibilidade de ficar linda, rica e famosa fazendo isso.
Não postarei mais sobre isso. Ideias absurdamente atraentes podem surgir...



*pensando sobre o assunto*



*eu teria que me depilar com frequência muito maior*


*e pagar a conta d’água*





*desistindo da ideia*


Então, o texto que se segue foi escrito em inúmeras etapas - cada vez que eu ia buscar referências em algum dos livros eu resolvia ler um pouco mais e inexplicavelmente tinham se passado duas horas - e regado a muita dinamite pangaláctica.


O livro mais vendido em toda a galáxia, exceto no setor ZZ9 Plural Z Alfa.



O Guia do Mochileiro das Galáxias é uma série de ficção científica de Douglas Adams, baseada em um programa de rádio do mesmo autor de 1978, que virou uma série de seis episódios da BBC e um filme em 2005. É uma trilogia de quatro livros, que por acaso são cinco, que conta as aventuras de Arthur Dent, Ford Prefect, Zaphod Beeblebrox, Trillian, e o melhor de todos, Marvin, o robô maníaco depressivo.

Quando eu comprei a série, confesso que não sabia nada sobre ela. Geralmente os livros que eu compro na loca me rendem ótimas surpresas – como o excelente livro de aventura Choque Mortal – enquanto outros muito bem recomendados provavelmente viram uma decepção – vida A menina que não sabia ler.

Mas minha única referência para o Guia era “Superdesconto Submarino! Toda a coleção Guia do Mochileiro das Galáxias por apenas R$29,90!”. E foi uma das melhores surpresas da minha vida. Provavelmente empatado com o dia em que eu perdi a... Ahnn, foi a melhor surpresa da minha vida, com certeza.

Os livros pingam ironia, tiram sarros de si mesmos, aplicam conhecimentos gerais, física, biologia, astronomia, matemática, filosofia, teologia, cultura geral e geek praticamente o tempo todo. E, mais importante, trolla o leitor constantemente.
Exemplo:

 – Sabe – disse Arthur – é em ocasiões como essa, em que estou preso em uma câmara de descompressão de uma espaçonave vogon, com um sujeito de Betelgeuse, prestes a morrer asfixiado no espaço, que realmente lamento não ter ouvido o que minha mãe me dizia quando eu era garoto.
- Por quê? O que ela dizia?
- Não sei. Eu nunca escutei.
 E você aí, achando que o que viria a seguir seria um ótimo conselho maternal né? BAZZINGA!

Não sei vocês, mas sempre separei, instintivamente, as pessoas ao meu redor se gostavam ou não de Simpsons. Se não, automaticamente as tratava de um jeito diferente. De cabeça, agora, me lembro de umas quatro pessoas, e já peço desculpas antecipadamente: a culpa não é minha se meu subconsciente prefere pessoas que apreciam a boa e fina sátira! Minha consciência apenas segue ordens!
Depois de separar as pessoas nessas categorias, eu ia para casa, assistia a algumas temporadas em Springfield. Depois lia uns capítulos do Guia. Depois via mais algumas em Springfield.

E daí me perguntava: COMO é possível alguém não gostar disso!?

Sério, não entendo. Se o estilo dele fosse difícil de ser compreendido – como João Guimarães Rosa – ou fosse extremamente descritivo – como Tolkien – com muito esforço, eu entenderia.
E só leio Senhor dos Aneis porque acho que o enredo supera qualquer necessidade de se saber contar uma história. Poderia ser contada em forma de hai cai, que ainda assim seria uma das melhores histórias já escritas.


Foco, Sarah, foco... Você fala sobre isso outro dia...

Mas sério, eu não entendo.
Ora bolas caraminholas, quantos autores de sci-fi você conhece cujo personagem SECUNDÁRIO – O Pensador Profundo - descobriu a resposta para a pergunta que aflige a humanidade sobre a Vida, o Universo e Tudo Mais?
Quantos autores ateus você conhece que provam a existência e a inexistência de Deus no mesmo parágrafo?
Quantas explicações para o fato do ser humano falar o óbvio constantemente você conhece que são melhores que se não exercitarem seus lábios constantemente, seus cérebros começam a funcionar?

Mas sério, eu não entendo.
E só aceito duas boas explicações para esse desgosto: ou você tem ataques epiléticos inexplicáveis quando lê/ouve a palavra “galáxia”, ou você tem síndrome de Asperger, que um dos sintomas apresentados é a incapacidade de se entender o sentido metafórico de expressões, tais como ironia.

Teste rápido de sarcasmo:
Você gosta desse cara?

O dono do sarcasmo-perfeito-na-tv.

Bem, o sarcasmo do livro é bem mais livre do que o de House. Ninguém, na galáxia inteira fica te falando “oooooooooooh o seu sarcasmo é ácido, por isso você afasta a todos e não quer amar ninguém, bla bla bla”. Ao contrário, você pode até mesmo ser o presidente da Galáxia! Se bem que todo mundo sabe que a função do presidente é desviar a atenção do poder, e que o verdadeiro poder é controlado por alguém que conversa com uma mesa.
 Mas mesmo assim, ninguém diz pro presidente “seu sarcasmo protege seu coraçãozinho, mas eu quero amá-lo!”


Malditas mulheres, sempre estragando os melhores seriados.

Não, no Guia, você lê trechos como esse:

 O robô fez um gesto, levantando a mão.
- Eu venho em paz – anunciou ele, acrescentando após um longo momento de esforço adicional -, levem-me ao seu lagarto.
Ford Prefect, é claro, tinha uma explicação para aquilo tudo, enquanto assistia com Arthur às repetidas reportagens frenéticas na televisão que, por sinal, não tinham nada a dizer, além de anunciar que a coisa tinha causado um prejuízo tal, avaliado em tantos bilhões de libras e que tinha matado aquele outro número completamente diferente de pessoas, e depois repetiam tudo novamente, porque o robô, desde então, estava prostrado, balançando levemente o corpo e emitindo pequenas mensagens de erro incompreensíveis.
- Ele vem de uma democracia muito antiga, sabe...
- Você está querendo dizer que ele vem de um mundo de lagartos?
- Não – respondeu Ford que, àquelas alturas, já estava um pocuo mais racional e coerente do que antes, tendo finalmente sido forçado a tomar uma xícara de café -, nada tão trivial. Nada assim tipo isso tão compreensível. No mundo dele, as pessoas são pessoas. Os líderes é que são lagartos. As pessoas odeiam os lagartos e os lagartos governam as pessoas.
Ué – comentou Arthur -, achei que você tinha dito que era uma democracia.
- Eu disse – afirmou Ford. – E é.
- Então – quis saber Arthur, torcendo para não soar ridiculamente estúpido -, por que as pessoas não se livram dos lagartos?
- Isso sinceramente nunca passou pela cabeça delas – disse Ford. – Como elas têm direito de voto, acabam supondo que o governo que elegeram é mais ou menos parecido com o governo que querem.
-Quer dizer que eles realmente votam nos lagartos?
-Ah sim – disse Ford, dando de ombros -, é claro.
- Mas – perguntou Arthur, sem medo de ser feliz – por quê?
- Porque, se deixam de votar em um lagarto, o lagarto errado pode assumir o poder. Você tem gim?
-O quê?
- Eu perguntei - disse Ford, com um tom crescente de impaciência entranhando-se em sua voz - se você tem gim.
- Vou ver. Conte-me sobre os lagartos.
Ford deu de ombros novamente.
- Algumas pessoas dizem que os lagartos são a melhor coisa que já lhes aconteceu - explicou ele. - Elas estão completamente enganadas, é claro, completa e absolutamente enganadas, mas é preciso que alguém tenha a coragem de dizer isso.
- Mas isso é terrível - disse Arthur.
- Olha, meu camarada - disse Ford -, se eu ganhasse um dólar altairiano cada vez que eu ouvisse um fragmento do Universo olhando para o outro fragmento do Universo e dizendo "Isso é terrível", eu não estaria sentado aqui como um limão procurando por um gim.

Douglas Adams sambando na cara da sociedade.

E quando você começar sua busca pelo conhecimento do Guia, ouça seu coração e ignore a ignorância (oi?) ao seu redor. Pessoas dirão que o livro é pura ficção e entretenimento. Dirão que nada daquilo é real. Que eu devo largar o Guia e sair ao sol, pelo menos uma vez por semana. Que relógios digitais são uma boa ideia.

Não acredite nessa gente.

Em “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, aprendi algumas verdades sobre o mundo, e também que estou no setor mais sem graça do universo, onde a toalha não tem o seu devido valor reconhecido. E aprendi a temer a Chegada do Grande Lenço Branco. E aprendi qual é o sentido da vida.
Em “O Restaurante no Fim do Universo” eu tive uma aula de filosofia melhor que todas as que eu tive no colégio e na faculdade somadas. Descobri a verdadeira origem da girafa, e também quanto é seis vezes sete.
Em “A Vida, o Universo e Tudo Mais”, aprendi sobre como a sociedade funciona melhor do que qualquer sociólogo por aí poderia explicar. E que um sofá vermelho flutuando numa Terra pré-histórica tem mais importância do que você pensa.
Em “Até mais, e obrigado pelos peixes!” aprendi mais sobre física, química e astronomia que o próprio Mundo de Beakman pôde ensinar. E aprendi a rezar por Bob.
Em “Praticamente Inofensiva”, aprendi que nada é o que parece, e nem tudo tem o final que você deseja.
Em “E tem mais uma coisa...” eu não aprendi nada, pois ainda não li. Não foi escrito por Douglas Adams, e sim por Eoin Colfer
.
Espera, o quê? WTF?

Sim, isso mesmo. Parece que muita gente não ficou feliz com o final do quinto livro – também, pudera né? – e foi feito um concurso para escrever o último livro. A versão desse cara foi considerada a melhor versão pós-mortem literária já feita, e seu livro também é considerado um final alternativo ao quinto livro, o que é estranho, porque o quinto livro já é considerado um final alternativo para a série. Tudo, isso é claro, devidamente autorizado pela família Adams.
Aposto que foi ideia da Mãozinha, aquela sapeca...

...

Piada ruim, ok.


...


Parem de ficar me recriminando, podemos voltar ao texto!?


É sério, eu costumo recomendar essa série a qualquer um que saiba ler. Se você não gostar, por favor, não espalhe. Diga que você é analfabeto, diga que só lê em aramaico e não traduziram ainda, diga que se não puder ler ao contrário sem aparecer uma mensagem do demônio não tem graça, DIGA QUALQUER COISA, mas não diga que não gostou.
Por favor.

O que eu tento dizer nesse texto é que essa série me fez abrir uma nova categoria de livros na minha cabeça. A categoria “Estilo-Guia”. Bem ao lado de “Estilo-Luis-Fernando-Verissimo” (na minha opinião o único que poderia se equiparar a Douglas em humor).
Talvez por isso eu relutasse tanto em assistir ao filme. Afinal, como poderiam traduzir em imagens, por exemplo, toda a indignação que Wonko, o São, sente pela humanidade? Como explicar a vidinha pacata que Arthur tentava levar pela galáxia, sem perder pelo menos quarenta minutos de explicações?
Tinha medo, muito medo...

 Mas após muita insistência, dois litros de vodka e sutis ameaças de exposição pública de certas fotos íntimas, eu finalmente aceitei, esperando qualquer coisa dessa película. Qualquer coisa mesmo. Se a Samara saísse da tela eu não me surpreenderia.
E enquanto todos ao meu redor riam às lágrimas com Zaphod, ou se indagavam sobre a criação do motor da improbabilidade infinita, eu me peguei admirando e babando em silêncio sobre a genialidade sem fim de Adams; como ele conseguiu fazer uma sinopse de cinco livros com assuntos aparentemente sem nexo, e transformá-los em um filme que fizesse sentido; como ele teve a grande sacada da Arma do Ponto de Vista e dos seres Perseguidores de Ideias no solo de Magrathea; como o filme conseguiu caracterizar os vogons à perfeição; como diversos símbolos dos livros foram inseridos, mesmo sem terem conexão com a história do filme (os caranguejos feitos de pedras preciosas e a estátua de Arthur que Agrajag fez sequer são mencionados pelos personagens, mas estão lá); como ele conseguiu até mesmo colocar alguns velhos clichês cinematográficos aparentemente obrigatórios (por favor, acha mesmo que Douglas Adams iria fazer espontaneamente um final tão ruim assim para Arthur e Trillian?), e ainda assim arrancar aplausos da plateia.

Não estou dizendo que o filme é uma alternativa à série. Isso nunca aconteceu, exceto em Game of Thrones. Mas supera as expectativas, e ainda assim com certeza é um filme diferente de todos os outros.

Talvez O Guia do Mochileiro das Galáxias seja que nem os Simpsons. Tem que ter um motivo muito bom para não gostar. Como ser um vogon, sei lá.
Com certeza a conversa mais interessante do mundo seria entre House, Douglas Adams, Luis Fernando Verissimo e Homer Simpson. Principalmente porque a parte de Adams teria que ser mediada por um médium(oi?²), já que ele morreu no dia 11 de maio de 2001. E o mundo chorou com isso. E todos se uniram e elevaram suas varinhas aos céus em direção à Marca Negra de Voldemort para fazer uma homenagem a um dos maiores gênios da humanidade, criando o Dia da Toalha. O dia 25 de maio foi escolhido tanto porque foi a data do lançamento do livro quanto para fazer uma junção com Dia de Star Wars (quando estreou o primeiro filme, em 25 de maio de 1977) e também pelo "Glorioso 25 de Maio" para os fãs da série Discworld; tudo isso juntou-se dando origem à Santíssima Trindade do Dia do Orgulho Nerd. No caso do Guia, dia pessoas desfilam com suas preciosas toalhas - essenciais para um mochileiro das galáxias - por aí. 
(Não SÓ de toalha, por favor, que esse mundo ainda é um mundo de família.)
 Simples, e ao mesmo tempo simboliza a importância que O Guia do Mochileiro das Galáxias tem para nós: nos sujeitamos a ser linchados na rua só para declarar o nosso amor.
Parabéns, Douglas Adams. Feliz Dia da Toalha pra você, e Feliz Dia do Orgulho Nerd a todos nós.


Título: - O Guia do Mochileiro das Galáxias(The Hitchhiker's Guide to the Galaxy)
- O Restaurante no Fim do Universo (The Restaurant at the End of the Universe)
- A Vida, o Universo e Tudo Mais (Life, the Universe and Everything)
- Até mais, e obrigado pelos peixes! (So Long, and Thanks for All the Fish)
- Praticamente Inofensiva (Mostly Harmless)
- E tem outra coisa...(And Another Thing)
Autor: Douglas Adams (o livro 6 foi por Eoin Colfer)
Tradutores: Marcia Heloisa Amarante Gonçalves, Carlos Irineu da Costa e Paulo Fenando Henriques Britto
Editora: A primeira edição dos 4 primeiros livros foi lançada pela Editora Arqueiro. A reedição e os livros 5 e 6 foram pela Editora Sextante.
Ano: 1º: 1979 - 2004
2º: 1980 - 2004
3º: 1982 - 2005
4º: 1984 - 2005
5º: 1992 - 2006
6º: 2009 - 2011
Motivos para dar de presente: eu tenho 42 ótimos motivos para dar, mas não me pergunte por quê.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Os estranhos

Saudações, povo da Terra. Eu vim em paz.

E também vim falar de um livro não-tão famoso de um escritor muito famoso. Na verdade, não sei se o livro é famoso, porque nunca ouvi falar dele, o que não quer dizer nada, então o livro pode ser famoso sim. Como pode não ser também, afinal, muito escritor famoso escreve livros que não ficam famosos... Mas esse em especial tem que ser famoso, porque o escritor é um dos mais famosos dos últimos tempos. Não exatamente os últimos, na verdade...
Vish, nada do que eu disse acima faz sentido, melhor eu começar de novo.


Esse livro junta todos os estilos que um bom nerd aprecia: terror, suspense e muita ficção científica. Juro que eu não compreendo como Stephen King pode ser tão... sonolento no início de seus livros, e nos causar tanta insônia nos desfechos. Sério.
...

Na verdade, eu compreendo sim. Quem já leu qualquer romance do Rei sabe como seu estilo é extremamente introspectivo; ele é a Clarice Lispector americana, só que com sobrancelhas mais estilosas. Em O Iluminado, por exemplo: na real só acontece alguma coisa quando Jack enlouquece de vez, no fim da história (ooops, spoilers); antes disso, era pura especulação mental, alucinações, lembranças, suspeitas. Nada real.
Nesse livro, os acontecimentos são um pouco mais... físicos. Muitos, ao lerem a sinopse, acharão que é um livro estranho, no mínimo. E estarão absolutamente corretos.
O livro conta basicamente a história de um disco voador enterrado em uma fazenda de uma cidadezinha, que tem a capacidade de “aprimorar” as pessoas ao seu redor. Esse aprimoramento, aparentemente, deixa as pessoas com tendências – tendendo ao infinito - levemente psicopatas, assassinas e assustadoramente eficientes. Eficientes em qualquer coisa.
A parte ruim da história é que, se você procura emoção, não vai encontrá-la antes da ducentésima página. O livro é dividido em quatro partes, mas em três atos: o durante, o bem antes, o durante (o bem antes e esse durante são da mesma parte), e o depois.

Hãn? Cuméquié?

Sim, você leu certo.  Não, eu não enlouqueci, não importa o que os médicos daqui do hospital digam!
Na primeira parte, temos a apresentação da vida horrível e suicida que o poeta e escritor fracassado Jim “Gard” Gardener levava, a descoberta de Roberta “Bobbi” Anderson da nave enterrada, e os primeiros efeitos que esse artefato causa nas pessoas.
Na segunda, King resolveu contar a história da cidade de Haven, seus escândalos, seu nascimento, sua política, suas lendas, seus acontecimentos absolutamente chatos. No começo achei que era pura enrolação, sabe quando o escritor tem toda uma história escrita em cem páginas, mas seu editor fala “precisamos de mais quatrocentas”? Pois é, achei que era assim, mas não. Tente não dormir nessa parte, ok? É importante.
Na terceira, temos outro durante, mas dessa vez é com outras pessoas. Bobbi e Gard praticamente desaparecem agora, e passamos a ver o que acontece com os outros moradores da cidade.
                Brigas de família, crianças se divertindo, velhos relembrando os bons tempos, jovens se apaixonando, uma mulher explodindo o marido porque ele estava pulando a cerca, um bebê sendo teletransportado para outro universo, essas coisas que costumam acontecer em cidade pequena, sacomé né?
E no depois, temos o desfecho. Simples e realista.
É a partir do segundo durante (?) que começamos a sentir o que qualquer leitor stephenkingniano sente a certa altura de qualquer história: o medo de ler à noite e não conseguir dormir depois. Porque o suspense vai aumentando, te matando aos poucos, exatamente como os moradores de Haven fazem, lentamente... E aí passamos a ler somente em lugares cheios de pessoas, ao meio-dia, olhando para trás constantemente para ver se o tarado da machadinha não está vindo.
O quê, vocês não sentem isso?


...

Bom, eu também não. RÁ-RÁ, peguei vocês! Claro que eu nunca faria isso a partir de hoje, imagina, que ridículo...
Podemos voltar ao livro, por favor?
É, o livro é bom. Mas tem um problema. O livro não é bom.
Eu já disse que não estou louca, caramba!
O livro é bom? Sim, porque foi Stephen King que o escreveu. Mas também não é bom, porque, sinceramente, não está à altura de suas outras obras.
Meu conselho de avó para vocês: se vocês perceberem que um autor está fazendo muito sucesso com certa obra, contrariem todas as leis do universo e NÃO A LEIAM! Vejam se ele tem outras obras, leiam-na antes, porque se vocês não fizerem isso, ficarão com a terrível MALDIÇÃO DA OBRA-PRIMA!


Como identificar alguém sofre dessa terrível maldição? Fácil, cite um autor (ou cantor, ou compositor, ou poeta, serve para todas as áreas) da moda e peça à pessoa sua obra favorita do dito-cujo. Se o que ela disser está na lista dos mais vendidos da Veja, ou é tema de algum personagem da novela, desconfie e peça mais informações. Se a pessoas não souber mais nada do autor, largue tudo e procure logo ajuda médica literária.
Não adianta jogar água benta, enfiar uma estaca de prata em seu coração, procurar as sete Esferas do Dragão ou dar-lhe um beijo de amor verdadeiro.
Se bem que as duas últimas podem funcionar... A penúltima melhor que a última, claro.

Na verdade, essa doença é incurável. Se você a pegou, estará irremediavelmente perdido, para sempre. Eu tenho essa doença nas formas de Carlos Ruiz Zafón – A Sombra do Vento -, Marcus Zusak – A Menina que Roubava Livros – Machado de Assis – Dom Casmurro – Stephen King – O Iluminado e Sistem of a Down - Hipnotize. Dessa forma, jamais poderei saborear uma obra deles com tanto gosto quanto da primeira vez, simplesmente porque já provei seu melhor por primeiro. Não façam como eu, crianças.
Comecem com esse livro. Evoluam para Carrie, a estranha, e no fim da vida, peçam aos seus netinhos para que leiam para vocês todas as obras-primas que vocês levaram a vida toda para se preparar. E morram felizes.

Ah! Agora a treta ficou séria: eu fiz um terrível processo de seleção, e após comer três aranhas, viver em uma árvore por duas semanas e matar um velhinho, finalmente fui aceita como autora do site grande e belo Nerdice. Portanto, muitas postagens daqui irão para lá também, assim como provavelmente várias de lá virão para cá (alguém entendeu?), com algumas alterações mas nada muito modificado. Beleza galera?

Título: Os Estranhos (The Tommyknockers)
Autor: Stephen King ( o MESTRE!)
Tradutora(nova!): Luísa Ibañez
Ano:1987
Motivos para dar de presente: como eu já disse, é pra galera iniciante na arte stephenkingniana. Não vamos começar com algo muito complexo, né?


terça-feira, 20 de março de 2012

Como viver eternamente

Pois bem, o falatório de hoje não é culpa minha! Quem escolheu o livro foi uma ninfa, filha do Rei Peneu; alvo da paixão de Apolo; nome da ópera escrita por Jacopo Peri, a primeira da humanidade, que infelizmente não existe mais; mas também é tema de outra ópera de Richard Strauss (Ele compôs essa obra aqui, pouco conhecida); e por último, mas não menos conhecida, é o membro mais desinteressante de um grupo drogado, que vê alucinações e conversa com um cachorro frequentemente.

                       Isso mesmo, Dafne, nossa convidada especial! Palmas!
Minha melhor amiga tem um nome exótico. Morram de inveja.

É, ela que escolheu. Nós temos basicamente o mesmo gosto por livros, embora ela seja saudavelmente menos fanática do que esta devoradora que vos fala. Em verdade, ela prefere fazer outras coisas, como, sei lá, estudar e ser alguém na vida, enquanto eu prefiro curtir a vida adoidado.

Por falar nisso, “Ferris Bueller’s Day off”, o velho conhecido da Sessão da Tarde “Curtindo a vida Adoidado” é dos meus filmes-mais-que-preferidos, e tem uma participaçãozinha mais-que-especial de um carinha aí que foi lindo na juventude e já trabalhou com dois homens e meio. #fikdik
Como vocês devem perceber, eu tenho muitos filmes-mais-que-preferidos. Isso às vezes me faz pensar que gasto muito do meu tempo nessas ficções, ao invés de viver a vida adoidado real, quem sabe arrumando um namorado, estudando, ou matando essas aranhas mutantes que vivem na parte de baixo da minha cama e insistem em tentar comer meu pé à noite.

Ahnn, como foi que chegamos nesse assunto mesmo? Ah, certo, o livro.



Maravilhosamente sensível e sensivelmente maravilhoso. É a história, em primeira pessoa, de Sam, um garoto com leucemia, e suas listas.

Primeiro livro de Sally Nicholls, é claro que o livro transpira inexperiência, mas isso não impede em nada de ser um dos melhores livros que já li. Inclusive, esse livrinho ainda dá porrada em muito escritor com mais estrada por aí ~ COFpauloCOFcoelhoCOF ~ apesar de Sally ter escolhido o que é provavelmente o segundo tema mais comum em dramas: câncer. Sempre que você, escritor, quiser arrancar lágrimas amargas das pessoas, acrescente algumas células com crescimento desordenado em alguns órgãos do corpo do pai de alguém, ou em seu recém-descoberto amor da sua vida, ou em seu filhinho adorado, ou em seu venerado mestre/mentor/padrinho. A morte será muito mais dolorosa, e você conquistará o amor dos leitores.

O primeiro tema mais usado é a guerra, se vocês quiserem saber. E com uma frequência que chega a ser desconfortável, a Segunda Guerra Mundial, seus horrores, seu desespero, blá blá blá.

Bem, mas essa história é um pouco mais do que as simples emoções de um garotinho que sabe que vai morrer em pouco tempo. Alguns anos se passaram desde que li esse livro pela primeira vez, mas minha opinião ainda é a mesma: a história não seria nada, se Felix não estivesse lá.
Felix é o melhor amigo de Sam, e também está morrendo. E como na grande-esmagadora-imensa-gigante-maioria das histórias em que o personagem principal vive uma saga (no caso, a própria vida de Sam é uma grande aventura), os amigos coadjuvantes são essenciais (sem falar que também são muito mais interessantes), e o protagonista não seria nada sem eles.

Sério. Foi assim com Frodo e Sam, com Harry Potter e Rony e Hermione, com os Irmãos Baudelaire, com Elliot e o E.T., com Han Solo e Chewbacca. O principal pode ter ficado com a glória, com a luta final, com o inimigo mais perigoso, mas ele não teria feito nada sem suas amizades.
E a mesmíssima coisa acontece aqui. Sam pode não reconhecer, mas Felix é seu suporte, seu amigo, seu incentivador, seu motivo para não sucumbir. As listas de Sam não valeriam nada sem ele, e sua morte é mais marcante do que a do próprio narrador.

Que agitação é essa aí no fundo?
NÃO comecem a dar chilique porque dei spoiler, é perfeitamente ÓBVIO que eles morreriam, ou francamente, vocês REALMENTE acreditam que esse tipo de história teria um final feliz? Parem de gritar! PAREM!

Bando de frescos...

Onde eu estava mesmo? Ah sim, lembrei. A morte de Felix.
Sabe, sua morte em si não é muito emocionante. Na verdade, a missa do funeral é que ativou meus ductos lacrimais... E fez a nossa convidada Dafne ser alvo de comentários e boatos na escola porque ela leu essa parte bem no meio da sala de aula, e tenho certeza que muita gente ignorou totalmente o fato dela estar com um livro na mão, intitulado “Como viver eternamente”; que esse livro era claramente triste; que ela em seguida se virou e comentou "meu, essa parte é muito triste!"; não, provavelmente devem ter dito por aí que ela estava grávida de um sem-teto, ou qualquer coisa parecida.Sério, essa gente deve ter algum bloqueio, ninguém na minha sala era capaz de enxergar um livro! Exceto pelos meus amigos =) De fato, líamos tanto que uma vez tivemos uma discussão terrível, com direito a vasculhar os livros em busca de referências, sobre qual era o animal que era símbolo da casa da Lufa-Lufa, um texugo, uma gambá ou um urso?
Texugo, claro. Eu ganhei essa.

Como eu cheguei nesse assunto mesmo?²


E por fim, quando fechei a estória, por um momento tive vontade de ter alguma doença terminal, só para conseguir a habilidade que Sam tem: ele faz listas de resoluções, e as cumpre. Todas, até mesmo sua viagem à lua – que, aliás, foi meu segundo momento de pausa para limpar os olhos – ele cumpre. E novamente, não teria conseguido cumprir quase nenhuma se não fosse por Felix.

Contemplem a primeira página do livro, sua primeira lista:



Sim, chorem.

E... é isso. Uma resenha curtinha (ou não) para um livro curtinho, e espero que tenha sido também uma resenha ótima para um livro ótimo.





Título: Como viver eternamente ( Ways to live forever: Every minute counts )
Autora: Sally Nicholls
Editora: Geração Editorial
Ano: 2007
Motivos para dar de presente: qualquer idade, qualquer nível de leitura, qualquer estado emocional merece lê-lo.


PS.: Essa droga de blog me inspira. Então, além de fazê-lo meu depósito diário de livros, eu o farei também meu laboratório; pretendo publicar algumas experiências literárias minhas, talvez contos, crônicas, ou até romances.
Mas provavelmente não na próxima postagem, talvez nem na outra. O importante é que farei.

E pela primeira vez estarei totalmente aberta às suas críticas, então pelo menos uma vez parem de fingir que gostam do que escrevo e me digam a verdade. De verdade!